maria hoje sem falar
é uma palavra e outra e outra a seguir
e outra encadeada na última
e por aí fora
no entanto as palavras uma vez ditas ganham vida
flutuam
são fortes
eu...tenho a sorte de esquecer muitas
já não teria aguentado
tal como as notas de música
as palavras desassossegam
entram
escarafuncham
ás vezes fazem sangue de tanto escarafunchar
seria bom poupá-las
no entanto...
falo
falo
falo
falo
e devia fechar a boca
a minha avó dizia
em bocas fechadas não entram moscas
assim hoje, calo-me
e escrevo poemas de amor:
ela está seminua na cama
deitada de lado
está sozinha
ela sabe que ele está longe
sabe que é uma folha que esvoaça no ar
uma pena de cotovia
talvez uma pequena borboleta que ele sacode
ele está longe
está calor
ela está seminua na cama onde dorme
tem um livro ao lado
ouve música baixinho
avishai cohen
ela imagina que não está no seu quarto
mas num qualquer quarto anónimo
e imagina que ele não está longe, mas perto
e que estão juntos num sítio onde deseja muito ir
Barcelona
ou Florença
ou Cartagena das Índias
ou Goa
ou Siena
curioso
não deseja ir a Paris
nem se lembra de Paris!
imagina e sente-se lá
num desses sítios
com chinelos e uma saia curta
e ouve os cheiros e os sons
talvez seja Jaipur...
cheira a especiarias
e o ar está adocicado
ela imagina palácios amarelos
e ruas cheias de gente colorida e feliz
e o seu beijo doce, no seu beijo doce
abre os olhos
veste qualquer coisa
faz um termo de chá gelado
entra no carro
e vai até aos montes
desce demasiado
she has a rich vivid imagination
desce muito
quando quer subir está sozinha e cansada
e cai
e é então que finalmente chora
chora
porque não tem forças para subir
e afinal está sozinha
longe de palácios amarelos
tira fotografias sem parar de soluçar
há alguém que se aproxima a correr
pergunta-lhe se está bem
ela diz que está apenas a fotografar
a pessoa diz-lhe
fotografa a chorar?
ela tenta sorrir
senta-se à sombra
bebe de uma vez o chá gelado
sobe devagar
desceu demasiado...
só lhe resta subir
mas sente-se lavada
tinha um rio de lágrimas dentro dela
senta-se nas escadinhas de madeira
ás vezes também o céu tem necessidade de chorar
e lava a terra no processo
nunca ninguém a olhou nos olhos
e lhe disse "amo-te"
ela pensa
"não sou amável"
e sossega
volta a casa
cozinha
faz risoto com portobellos
entra no quarto
olha a cama
a sua
e dorme


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